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Antes de Demitir o Cardeal Müller, o Papa fez Cinco Perguntas Pontuais

Escrito por Mateus

Por Maike Hickson, One Peter Five, em 10 de julho de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com

Depois que o Cardeal Gerhard Müller, ex-Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, revelou que havia conversado ao telefone com o finado Cardeal Joachim Meisner sobre sua recente demissão e que essa conversa acontecera na véspera do súbito falecimento de Meisner, na manhã de 5 de julho, várias fontes bem informadas na Europa com quem mantenho contato usaram todas a mesma expressão, ou seja, eles especularam que talvez o Cardeal Meisner “tenha morrido de tristeza”. À luz das seguintes revelações sobre o conteúdo do encontro entre o Papa Francisco e o Cardeal Müller, em 30 de junho, podemos estar ainda mais propensos a acreditar que isso tenha acontecido – ao menos, como uma possibilidade moral.

As informações a seguir procedem do relato de uma fonte alemã confiável, que falou ao OnePeterFive sob a condição de anonimato. Ele cita uma testemunha ocular que almoçou recentemente com o Cardeal Müller em Mainz, na Alemanha. Durante a refeição, o Cardeal Müller teria divulgado na presença dessa testemunha ocular certas informações sobre seu último encontro com o Papa, durante o qual ele foi informado de que seu mandato como Prefeito da CDF não seria renovado.

De acordo com esse relato, o Cardeal Müller foi convocado pelo Palácio Apostólico em 30 de junho, e assim ele foi para lá com seus arquivos de trabalho, supondo que essa reunião seria uma reunião de trabalho habitual. Contudo, o Papa lhe disse que tinha apenas cinco perguntas a fazer:

  • Você é contra ou a favor de um diaconato feminino? “Sou contra”, respondeu o cardeal Müller.
  • Você é contra ou a favor da revogação do celibato? “É claro que sou contra”, respondeu o cardeal.
  • Você é contra ou a favor do sacerdócio feminino? “Definitivamente sou contra essa ideia”, respondeu o Cardeal Müller.
  • Você está disposto a defender a Amoris Laetitia? “Tanto quanto seja possível para mim”, respondeu o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé: “ainda existem ambiguidades”.
  • Você está disposto a retirar sua reclamação a respeito da demissão de três de seus próprios funcionários? O Cardeal Müller respondeu: “Santo Padre, estes homens eram bons e sem culpa, dos quais sinto falta agora, e não foi correto demiti-los passando por cima de mim, pouco antes do Natal, de modo que tiveram que esvaziar seus escritórios até o dia 28 de dezembro. Sinto falta deles agora”.

Então, o papa respondeu: “Bom, Cardeal Müller, eu só queria lhe informar que não prorrogarei o seu mandato [ou seja, após o dia 2 de julho] como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.”

Sem dizer adeus ou dar uma explicação, o papa saiu da sala. A princípio, o Cardeal Müller pensou que o papa saiu para buscar um sinal de gratidão e, assim, ficou esperando pacientemente. Mas, não havia tal presente, nem mesmo um gesto de gratidão pelo seu serviço. O Prefeito da Casa Pontifícia, Arcebispo Georg Gänswein, teve que lhe explicar que a reunião havia terminado, e que era hora de partir.

No momento em que escrevemos este texto, não conseguimos obter confirmação desses eventos por parte do Cardeal Müller, nem de seu secretário, a quem nos dirigimos para comentar. Igualmente, pedimos um comentário de Greg Burke no Gabinte de Imprensa do Vaticano, mas, na ocasião não recebemos resposta alguma.

Se esse relato for verídico – e, dadas às fontes, temos poucos motivos para duvidar disso – podemos imaginar por que o Cardeal Meisner teria ficado angustiado depois de tomar conhecimento dessa reunião nas horas precedentes à sua morte. Será que estas cinco perguntas com suas respostas do tipo sim ou não, se de fato foram feitas ao Cardeal Müller, constituem uma espécie de dubia reversa? Será que as respostas do Cardeal, na medida em que estavam em consonância com o pensamento católico ortodoxo, foram o motivo para que ele não fosse convidado a permanecer no cargo de Prefeito da CDF? Três das cinco perguntas (diaconato feminino, celibato sacerdotal e promoção da Amoris Laetitia) foram amplamente discutidas como parte da agenda de “reforma” do papa. (A esse respeito vale a pena mencionar que o Arcebispo Luis Francisco Ladaria Ferrer, SJ, aprovado como substituto de Müller como Prefeito da CDF, foi nomeado no ano passado como Presidente da Comissão para o estudo do diaconato feminino). Mas será que o sacerdócio feminino realmente deveria ser analisado em relação ao diaconato feminino, mesmo que o Papa Francisco já tenha afirmado pessoalmente o entendimento de que o Papa João Paulo II decidiu definitivamente contra essa possibilidade? E quanto à última suposta pergunta – a respeito da demissão pelo papa de três sacerdotes da CDF no ano passado? Se essa pergunta fosse feita, seria apenas uma prova de obediência inquestionável? Lembre-se de que a resposta atribuída ao papa, quando indagado pelo Cardeal Müller sobre a demissão desses três sacerdotes, foi simplesmente dizer: “Eu sou o papa, não preciso dar razões para nenhuma das minhas decisões. Decidi que eles têm que sair e eles precisam sair”.

Em uma entrevista ao jornal alemão Passauer Neue Press, Müller revelou informações adicionais que parecem corroborar a forma abrupta descrita acima do seu encontro final com o papa: Segundo o Cardeal Müller, o Papa Francisco disse que “comunicou sua decisão” de não renovar seu mandato “em um minuto” no último dia de trabalho de seu mandato de cinco anos e não apresentou qualquer razão para isso.

“Não posso aceitar esse estilo [sic]”, disse Müller. “A doutrina social da Igreja deve ser aplicada” no relacionamento com os funcionários, acrescentou.

Conforme documentado em nosso próprio relato sobre a saída do Cardeal Müller, ele sofreu uma série de indignidades durante seu mandato como Prefeito da CDF sob o presente pontificado. No entanto, Müller esforçou-se desde o anúncio de sua saída para dar a aparência pública de que sua relação com o papa não estava desgastada. “Não houve diferenças entre mim e o papa Francisco”, disse Müller a um jornal alemão local durante a mesma visita a Mainz, quando ele alegou ter revelado ao seu companheiro de jantar o contexto de seu encontro final com o papa. Não está inteiramente claro se Müller está expressando uma falta de conflito entre si e o papa como sinal de solidariedade, ou para enfatizar a inesperada decisão do Papa de não renovar seu mandato. Seja qual for o caso, ele procurou minimizar publicamente o significado de sua demissão.

Há pouco sobre a demissão de Müller de um dos gabinetes eclesiásticos mais proeminentes da Igreja Católica que não seja incomum. Enquanto o respeitado vaticanista, Marco Tosatti, observou em seu importante ensaioFirst Things, de 7 de julho, que a saída de Müller do cargo aos 69 anos – muito antes da idade de aposentadoria obrigatória – foi “um gesto inédito na História recente da Igreja”. Nas últimas seis décadas. Tosatti observou que: “Os prefeitos da congregação mais importante da Igreja (chamada “La Suprema”) se aposentaram por motivos de idade ou de saúde, ou foram convocados, no caso de Joseph Ratzinger, para se tornar papa.” Nenhum deles durante esse período sofreu a indignidade de simplesmente ser demitido sem cerimônias.

Um caso relatado por Tosatti a partir de suas próprias conversas com amigos do cardeal alemão dá credibilidade especial à imagem emergente que o Papa Francisco há muito tempo tratou o prefeito emérito com desprezo:

Parece que Müller experimentou a vida sob Bergoglio como uma espécie de Calvário. Isso, apesar das declarações de Müller – ele foi um bom soldado até o fim, e ainda mais.

O primeiro passo do Calvário de Müller foi um episódio desconcertante ocorrido em meados de 2013. O cardeal estava celebrando Missa para um grupo de estudantes e intelectuais alemães na igreja anexa ao palácio da congregação. Seu secretário foi até ele no altar: “O papa quer falar com o senhor.” “Você lhe disse que estou celebrando missa?”, indagou Müller. “Sim”, disse o secretário, “mas ele diz que não se importa, ele quer falar com o senhor assim mesmo”. O cardeal foi até a sacristia. O papa, muito mal-humorado, deu-lhe algumas ordens e um dossiê sobre um dos seus amigos, um cardeal. (Este é um assunto muito delicado. Tenho buscado uma explicação deste incidente de canais oficiais. Até que venha a explicação, se algum dia vier, não posso dar mais detalhes.) Obviamente, Mūller ficou surpreso.

Como Marco Tosatti, buscamos, mas nunca podemos fornecer uma explicação sobre o incidente das cinco perguntas dos canais oficiais. Só podemos dizer que nossas fontes não são dadas a especulação ociosa. Eles estão confiantes de que os eventos aconteceram conforme descrito.

Por enquanto, basta observar que, nas atuais circunstâncias, mesmo os céticos teriam dificuldade em descartar um relato desse incidente. As histórias que saem do Vaticano ficam mais incríveis a cada dia – e mesmo a pior delas parece não merecer comentários – ou, o que é mais importante, correção – aos olhos das autoridades da Igreja.

Steve Skojec contribuiu para esta história.

Sobre o autor

Mateus

  • José Osivan Barbosa de Lima

    É lamentável acontecer um caso desse.