formação Igreja

O Grande Cisma do Ocidente (1378-1417)

Escrito por Amor Mariano

Salve Maria Puríssima!

Continuando nossa série de artigos sobre “as crises já enfrentadas pela Santa Igreja” (clique aqui para ler o primeiro artigo), hoje, vamos abordar o Grande Cisma do Ocidente, datado entre 1378 e 1417.

 “Havia agora três Papas, e três colégios de cardeais, em algumas dioceses, três bispos rivais, e em algumas ordens religiosas, três superiores rivais.”

Uma Análise do Grande Cisma do Ocidente

 

Os Papas

Linha de Avinhão

Linha de Pisa

Urbano VI (1378- 1389)

Bonifácio IX (1389 – 1404)

Inocêncio VII (1404 -1406)

Gregório XII (1406 – 141 5) O Papa menos apoiado da história, o menos reconhecido pelos três reclamantes, rejeitado por quase toda a cristandade

Clemente VII (1378-1394) Reconhecido por quase todos os cardeais viventes que haviam eleito a Urbano VI

Bento XIII (1394 – 1417) reconhecido durante algum tempo por São Vicente Férrer

Linha favorecida pela maioria dos teólogos daquela época, eleitos pelos cardeais de cada lado*

Alexandre V (1409-1410) eleito pelos cardeais em Pisa

João XXIII ( 1410 -1415) reinou em Roma, teve o apoio mais amplo dos três reclamantes

Resolvido com a eleição do Papa Martinho V em 1417, no Concílio de Constança

Como isto tudo aconteceu

O conclave no Vaticano (1378), depois da morte do Papa Gregório XI, foi o primeiro a ser reunido em Roma desde 1303. Os Papas haviam residido em Avinhão por aproximadamente 70 anos devido à desordem política. O conclave realizou-se no meio de cenas de alvoroço sem precedentes. 1 Como a França se tornara a residência dos Papas durante os últimos 70 anos, a multidão romana que rodeava o conclave estava muito revoltada e exigia que os cardeais elegessem um romano, ou pelo menos um italiano. Em determinado momento, crendo que havia sido eleito um francês ao invés de um italiano, a multidão realizou um assalto ao palácio:

“A multidão furiosa começou a lançar pedras às janelas do palácio e atacou as portas com picos e machados. Não havia força de defesa efectiva; a multidão entrou como um turbilhão.” 2

Eventualmente, um italiano foi eleito por 16 cardeais: o Papa Urbano VI. O novo Papa perguntou aos cardeais se o haviam eleito livre e canonicamente; eles disseram que sim. Pouco depois da eleição, os 16 que o haviam eleito escreveram aos seis cardeais que permaneceram obstinadamente em Avinhão:

 “Demos os nossos votos a Bartolomeu, o arcebispo de Bari [Urbano VI], que se distingue pelos seus grandes méritos e cujas virtudes múltiplas fazem-no um exemplo brilhante; elevámo-lo, de pleno acordo, à excelência apostólica e anunciámos a nossa eleição à multidão dos cristãos.” 3

 

OS CARDEAIS REJEITAM O PAPA URBANO VI SOB O PRETEXTO DE UMA MULTIDÃO FURIOSA

Porém, pouco depois da sua eleição, o Papa Urbano VI começou a afastar os cardeais.

“Os cardeais franceses, que formavam a maioria do Sacro Colégio, não estavam satisfeitos com a cidade e desejavam regressar a Avinhão, onde não havia basílicas em ruinas nem palácios arruinados, nem tumultuosas turbas romanas ou pestes mortais, onde a vida era, numa palavra, mais cómoda. Urbano VI recusou-se a sair de Roma e, com severa determinação, lhes deu a entender sem pelos na língua que reformaria a corte papal e acabaria com o luxo da sua vida, o que ofendeu profundamente aos cardeais.” 4

Um por um, os cardeais foram de férias para Anagni, em França. “O novo Papa, sem suspeitar de nada, lhes permitiu que lá fossem durante o verão. A meio de Julho… concordaram entre eles que a eleição de Abril havia sido inválida devido à coacção da multidão que os rodeava e que, usando isto como razão, deixariam de reconhecer a Urbano.” 5

Uma vez difundida a notícia da decisão dos cardeais em repudiar a Urbano VI, o canonista Baldus, considerado o jurista mais famoso da sua época, publicou um tratado em desacordo com a decisão dos cardeais. Ele declarou:

“… não havia motivos para que os cardeais repudiassem um papa uma vez que o tivessem eleito, e ninguém na Igreja, nem todos em conjunto podiam destituir-lo, excepto pela heresia pertinaz e manifesta.” 6

TODOS OS CARDEAIS DA ALTURA REJEITAM URBANO VI E RECONHECEM UM ANTIPAPA

Em 20 de Julho de 1378, 15 dos 16 cardeais que haviam eleito o Papa Urbano VI deixaram de lhe prestar obediência argumentando que a multidão rebelde romana havia feito que a eleição não fosse canônica. O único cardeal que não repudiou o Papa Urbano VI foi o Cardeal Tebaldeschi, mas esse morreu pouco depois, em 7 de Setembro, deixando as coisas numa situação na qual nenhum dos cardeais da Igreja Católica reconheceram o verdadeiro papa, Urbano VI. Todos os cardeais consideraram a sua eleição como inválida. 7

Depois de terem repudiado Urbano VI, em 20 de Setembro de 1378, os cardeais procederam a eleger a Clemente VII como “Papa,” que estabeleceu o seu “papado” rival em Avinhão. E assim se havia iniciado o Grande Cisma do Ocidente.

“Os cardeais rebeldes escreveram aos tribunais europeus explicando o seu proceder. Carlos V de França e toda a nação francesa reconheceram imediatamente a Clemente VII, assim como Flandres, Espanha e Escócia. O Império e a Inglaterra, com as nações do Norte e de Este e a maioria das repúblicas italianas, aderiram a Urbano VI.” 8

Apesar da validez da eleição de Urbano VI ter sido comprovável, pode-se ver por que muitos aceitaram o argumento de que a multidão romana havia influído ilegalmente em sua eleição, e que isso a tinha tornado não-canônica. Por outra parte, pode ver-se como a posição do antipapa Clemente VII se fortaleceu de maneira considerável e impositiva aos olhos de muitos, pelo facto de que 15 dos 16 cardeais que haviam eleito a Urbano VI rejeitaram a sua eleição como inválida. A situação que se deu após a aceitação do antipapa Clemente VII pelos cardeais foi um pesadelo, um pesadelo desde o princípio – um pesadelo que nos mostra o quão mal e confuso pode ser o ponto em que Deus permite que as coisas às vezes cheguem, sem violar as promessas fundamentais que Ele fez à sua Igreja:

“O cisma era já um fato consumado e, durante quarenta anos, a cristandade foi o palco do triste espetáculo no qual firmou a sua lealdade a dois e até a três papas rivais. Foi a crise mais perigosa pela qual a Igreja alguma vez passara. Ambos os papas declararam uma cruzada contra o outro. Cada um dos Papas reivindicava o direito a criar cardeais e confirmar arcebispos, bispos e abades, pelo que existiam dois colégios de cardeais e em muitos lugares existiam dois reclamantes aos altos cargos na Igreja. Cada papa empenhava-se em colectar todas as receitas eclesiásticas, e cada um excomungou o outro e a todos os demais seguidores.” 9

O espetáculo continuou enquanto papas e antipapas morriam, e papas e antipapas os sucediam. O Papa Urbano VI morreu em 1389, e foi sucedido pelo Papa Bonifácio IX, que reinou desde 1389 até 1404. Depois da eleição de Bonifácio IX, este foi excomungado de imediato pelo antipapa Clemente VII, e aquele respondeu à letra excomungando-o também.

Durante o seu reinado, o Papa Bonifácio IX “foi incapaz de ampliar a sua esfera de influência na Europa; de facto, Sicília e Génova chegaram mesmo a apartarem-se dele. Para evitar a propagação de apoio a Clemente na Alemanha, ele outorgou favores ao rei alemão Venceslau…” 10

OS CARDEAIS DE AMBOS OS LADOS FAZEM UM JURAMENTO PARA ACABAR COM O CISMA ANTES QUE PARTICIPASSEM EM NOVAS ELEIÇÕES, O QUE DEMONSTRA O QUÃO MÁ A SITUAÇÃO SE TINHA TORNADO

Enquanto isso, em Avinhão, no ano de 1394, o antipapa Clemente VII morre. Antes de eleger o sucessor de Clemente VII, todos os 21 cardeais “juraram trabalhar para o fim do cisma, cada um prometendo que, se fosse eleito, abdicaria se e quando a maioria o julgasse adequado.” 11 Lembre-se disto pois será relevante para quando tratarmos do porquê da entrada em cena de um terceiro reclamante ao papado.

Os cardeais de Avinhão procederam à eleição de Pedro de Luna, (o antipapa) Bento XIII, para substituir o antipapa Clemente VII. Bento XIII reinou como reclamante de Avinhão durante o resto do cisma. Por algum tempo, Bento XIII teve como apoiante nenhum outro que o obrador de milagres dominicano, São Vicente Férrer. São Vicente foi seu confessor durante algum tempo12, crendo que a linha de Avinhão era a linha válida (até tempos mais tarde ao longo do cisma). Obviamente que São Vicente havia sido persuadido de que a eleição do Papa Urbano VI fora inválida devido à multidão rebelde romana, para além da aceitação formidável da linha de Avinhão por parte de 15 dos 16 cardeais que haviam tomado parte na eleição de Urbano VI.

Como cardeal, o antipapa Bento XIII havia originalmente tomado parte na eleição do Papa Urbano VI, e logo abandonou Urbano e ajudou a eleger Clemente (que, obviamente, havia sido convencido de que a eleição de Urbano era inválida). Como cardeal sob o antipapa Clemente VII, Bento XIII “foi o seu legado na península Ibérica durante onze anos, e pela sua diplomacia atraiu a Aragão, Castela, Navarra e Portugal à sua obediência [ao antipapa Clemente VII].” 13

Após ter jurado seguir o caminho da abdicação para pôr fim ao cisma caso a maioria dos seus cardeais estivessem de acordo, o antipapa Bento XIII ofendeu a muitos de seus cardeais quando se retratou da sua promessa e se mostrou relutante em considerar a abdicação, apesar do facto de essa ter sido a vontade de seus cardeais. O seu rival, o Papa Bonifácio IX, mostrou igualmente má vontade para o fazer.

 Em 1404, o Papa Bonifácio IX (o sucessor de Urbano VI) morreu, e o Papa Inocêncio VII foi eleito como seu sucessor pelos oito cardeais disponíveis. Porém, o Papa Inocêncio VII não viveu por muito, morrendo dois anos mais tarde, em 1406. Durante o seu curto reinado, Inocêncio VII se opusera em reunir-se com o reclamante de Avinhão, Bento XIII, apesar de ter feito um juramento antes da sua eleição de fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para pôr fim ao cisma, incluindo a abdicação se fosse necessário.

Enquanto persistia o cisma, os membros de ambos os partidos frustravam-se cada vez mais com a falta de vontade de ambos os reclamantes em adoptar medidas eficazes para pôr fim ao cisma.

“As vozes escutavam-se por todas as partes pedindo que se restabelecesse a união. A Universidade de Paris, ou melhor, os seus dois professores mais proeminentes, João Gerson e Pedro d’Ailly, propuseram que se convocasse um Concílio General para decidir entre os pretendentes rivais.” 14

De acordo com este sentimento generalizado de adoptar medidas eficazes para pôr fim ao cisma, outro juramento foi tomado antes da eleição do sucessor de Inocêncio VII.

 “… cada um dos quatorze cardeais no conclave, a seguir a morte de [o Papa] Inocêncio VII, jurou que, se fosse eleito, abdicaria com a condição de que o antipapa Bento XIII fizesse o mesmo ou  morresse; também que [o eleito] não criaria novos cardeais, salvo para manter a paridade dos números com os cardeais de Avinhão, e que dentro de três meses haveria de entrar em negociações com o seu rival sobre o lugar da reunião.” 15

O próprio fato de os cardeais, que se preparavam para eleger um verdadeiro papa, terem feito um juramento como este ― que incluía negociações com um antipapa ― mostra o quão horrível a situação se tinha tornado durante o cisma, e o quão apoiado era o antipapa na cristandade.

O conclave procedeu elegendo o Papa Gregório XII, em 30 de Novembro de 1406. A esperança de que o fim do cisma chegasse em breve foi renovada pelas negociações do Papa Gregório XII com o antipapa Bento XIII. Os dois chegaram mesmo a acordar um lugar para se encontrarem, mas o Papa Gregório XII mostrou-se reticente; temia (e com razão) o quê de sinceridade por trás das intenções do antipapa Bento XIII. O Papa Gregório XII foi também influenciado por alguns de seus parentes mais próximos a não resignar, que lhe figuraram um cenário negativo acerca do que poderia suceder caso renunciasse.

OS CARDEAIS DE AMBOS OS LADOS FARTAM-SE, VÃO A PISA E ELEGEM UM NOVO “PAPA” NUMA CERIMONIA IMPRESSIONANTE QUE INCLUIU CARDEAIS DE AMBOS OS PARTIDOS

“À medida que as negociações [entre o Papa Gregório XII e Bento XIII de Avinhão] se prolongavam, os cardeais de Gregório XII ficavam cada vez mais inquietos. Uma ruptura aberta se fez inevitável quando o Papa Gregório XII, suspeitando da lealdade de seus rivais, quebrou a sua promessa pré-eleitoral e, em 4 de Maio, anunciou a criação de quatro novos cardeais… Então todos, excepto três do seu colégio original, o abandonaram e fugiram para Pisa…” 16

Os 14 cardeais que deixaram de obedecer ao Papa Gregório XII e fugiram para Pisa, lá se uniram com 10 cardeais que abandonaram a obediência ao antipapa Bento XIII. Os cardeais dos dois lados haviam organizado um concílio, e estavam decididos a pôr fim ao cisma por meio de uma eleição conjunta em Pisa.

“Aos olhos do mundo, o Concílio de Pisa foi, sem dúvida uma assembleia brilhante, na qual participaram 24 cardeais (quatorze ex-aderentes ao Papa Gregório XII, os dez de Luna [Bento XIII]… quatro patriarcas, 80 bispos, 89 abades, 41 priores, os chefes das quatro ordens religiosas, e representantes de praticamente todas as universidades, reinos, e grande parte das casas nobres na Europa católica.” 17

O cardeal arcebispo de Milão deu o discurso de abertura em Pisa. Ele condenou a ambos os reclamantes, Gregório XII e (o antipapa) Bento XIII, e os convocou formalmente a comparecer no concílio. Por não se apresentarem, foram declarados como desobedientes obstinados.

Há que realçar que, nesta fase do cisma (1409), as pessoas estavam tão desesperadas com a prolongada desunião e com as promessas rotas dos dois reclamantes, que a assembleia em Pisa foi recebida e apoiada amplamente. Esta tornou-se ainda mais impressionante e atrativa pelo facto de que os seus 24 cardeais eram compostos por um número considerável de cardeais provenientes de ambos os lados [Gregório XII e o antipapa Bento XIII]. Isto lhe deu a aparência de uma ação unida dos cardeais da Igreja. Em 29 de Junho de 1409, os 24 cardeais elegeram por unanimidade a Alexandre V. Agora havia ao mesmo tempo três reclamantes ao papado.

 Pe. John Laux, História da Igreja, pág. 405: “Havia agora três Papas, e três colégios de cardeais, em algumas dioceses, três bispos rivais, e em algumas ordens religiosas, três superiores rivais.” 18

O TERCEIRO RECLAMANTE, O ANTIPAPA DE PISA, OBTEVE O MAIS AMPLO APOIO E A APROVAÇÃO DA MAIORIA DOS TEÓLOGOS PORQUE ELE APARENTAVA SER FRUTO DA ESCOLHA FEITA EM UNIÃO POR CARDEAIS DE AMBOS OS LADOS

O recém-eleito antipapa de Pisa, Alexandre V, obteve o apoio mais amplo da cristandade entre os três reclamantes. O verdadeiro papa, Gregório XIII, foi o menos apoiado.

 Desde o princípio, Alexandre V “obteve o apoio de Inglaterra, da maior parte de França, dos Países Baixos, Boémia… Polónia… da sua própria cidade de Milão, Veneza e Florença. De Luna [o antipapa Bento XIII] conservava o apoio de Aragão – de onde provinha, – de Castela, de partes do sul de França e Escócia. … Gregório XII foi dos três o mais debilitado, retendo apenas a lealdade de Nápoles, do oeste de Alemanha, algumas cidades do norte de Itália, e do fidelíssimo Carlo Malatesta de Rimini… O Grande Cisma do Ocidente se converteu num triângulo de lealdades distorcidas, com o verdadeiro Papa sendo o mais débil dos três… A Igreja Católica parecia estar sofrendo o destino que mais tarde alcançaria o protestantismo: subdivisões repetidas e irreversíveis… O pior de tudo é que não parecia haver remédio para este desastre.” 19

A maioria dos sábios teólogos e canonistas da época estavam a favor da linha dos antipapas de Pisa.

“Durante o Outono de 1408 e o Inverno de 1409, o debate continuou num ambiente de cólera entre os teólogos e canonistas. A maioria deles, em maior ou menor grau de desespero, estavam agora a favor do concílio, independentemente de quem o verdadeiro papa pudesse ser ou de como seria autorizado.” 20

NENHUM VERDADEIRO PAPA NA HISTÓRIA TEVE TÃO POUCO APOIO COMO TEVE O PAPA GREGÓRIO XII PRÓXIMO DO FIM DO GRANDE CISMA DO OCIDENTE

Em 1411, Sigismundo, o recém-eleito imperador do Sacro Império Romano, cedeu ao sentimento geral e abandonou o verdadeiro papa, Gregório XII.

 “Sigismundo queria a aprovação eleitoral unânime, e tendo em conta o abandono generalizado de Gregório XII por muitos dos que o haviam obedecido previamente (sobre tudo em Itália e Inglaterra), a confiança de Sigismundo na legitimidade de Gregório pode ter sido profundamente abalada. Nenhum verdadeiro Papa na história da Igreja havia tido tão pouco apoio como Gregório XII teve a seguir ao Concílio de Pisa.” 21

O recém-eleito antipapa de Pisa, Alexandre V, não viveu muito tempo. Morreu menos de um ano após a sua eleição, em Maio de 1410. Para suceder-lhe, em 17 de Maio de 1410, os cardeais de Pisa elegeram por unanimidade a Baltazar Cossa como João XXIII. Assim como o seu predecessor, o antipapa Alexandre V, João XXIII também obteve o apoio mais amplo entre os três reclamantes.

“Embora havendo três reclamantes ao papado, João [XXIII] tinha sob seu comando o apoio mais amplo, com França, Inglaterra e vários estados italianos e alemães a reconhecerem-no. Com a ajuda de Luis de Anjou… foi capaz de estabelecer-se em Roma.” 22

Durante o quarto ano do seu reinado como antipapa, João XXIII convocou o Concílio de Constança em 1414, em virtude da insistência do Imperador Sigismundo.

Neste ponto do cisma, o Imperador Sigismundo decidiu-se a unir a Cristandade para trabalhar pela abdicação dos três reclamantes. Quando o antipapa João XXIII se deu conta que não iria ser aceite como o verdadeiro papa no Concílio de Constança, fugiu do Concílio. “Esta tarde, Cossa fugiu de Constança, montado num cavalo pequeno e escuro (em contraste com os nove cavalos brancos detrás dos quais havia entrado na cidade em Outubro), coberto de uma grande capa cinzenta que lhe embrulhava a toda volta para esconder a maior parte do seu rosto e corpo…” 23

O antipapa João XXIII foi formalmente condenado e deposto pelo concílio. Uma ordem foi enviada pelo Imperador para prendê-lo; foi detido e encarcerado. Na prisão, o antipapa João XXIII “entregou com lágrimas o seu selo papal e o anel do pescador aos representantes do concílio.” Ele aceitou o veredicto contra ele sem protesto. 24

Quando o Concílio de Constança (considerado em parte ou por completo como o décimo sexto ecuménico, 1414-1417)… destituiu João XXIII, este entrou em negociações com Gregório XII, que transmitiu a sua disposição de renunciar, com a condição de que se lhe fosse formalmente permitido convocar prelados e dignitários reunidos novamente num concílio geral; como Papa, ele não poderia reconhecer um [concílio] que fora convocado por João XXIII. Este procedimento foi aceite, e na décima quarta sessão solene, em 4 de Julho de 1415, seu cardeal João Dominici leu a sua bula convocando o concílio, no qual Carlo Malatesta [o Papa Gregório XII] anunciou a sua renúncia. Os dois colégios de cardeais se uniram, os actos de Gregório XII em seu pontificado foram ratificados…” 25

Portanto, depois de ter sido deposto o antipapa João XXIII, o Papa Gregório XII acordou convocar o Concílio de Constança (com o fim de conferir-lhe a legitimidade papal que o antipapa João XXIII não podia dar-lhe) e logo renunciou com a esperança de pôr fim ao cisma.

Entretanto, o antipapa Bento XIII (o reclamante de Avinhão) foi contatado pelo Imperador Sigismundo, que lhe pediu a renúncia. Ele recusou-se obstinadamente até o final, mas por esta altura o sentimento geral havia ido tão longe em seu desfavor que os seus seguidores escasseavam consideravelmente.

“Sigismundo, que fizera tudo ao seu alcance para induzir Bento XIII, da linha de Avinhão, a abdicar, sucedeu em afastar aos espanhóis da sua causa. O concílio declarou então a sua deposição, em 16 de Julho de 1417.” 26

Tendo ambos os antipapas sido depostos, e o verdadeiro papa renunciado, o Concílio de Constança procedeu em eleger o Papa Martinho V em 11 de Novembro de 1417, pondo um fim oficial ao Grande Cisma do Ocidente. (A linha de antipapas de Avinhão se manteve depois da morte do antipapa Bento XIII com a eleição do antipapa Clemente VIII como seu sucessor, feita pelos seus quatro restantes cardeais. Estes cardeais consideraram entretanto a eleição do antipapa Clemente VIII inválida e elegeram o antipapa Bento XIV; mas, na altura da deposição do antipapa Bento XIII pelo Concílio de Constança, a linha de Avinhão já tinha perdido tanto apoio que estes dois últimos sucessores do antipapa Bento XIII tornaram-se tão insignificantes a ponto de não merecem sequer uma nota de rodapé).

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Fonte: www.igrejacatolica.org (Cuidado, site sedevacantista!)

*Com adaptações do Blog Amor Mariano. Usamos apenas aquilo que nos interessava no artigo, ou seja, o cunho histórico do Grande Cisma do Ocidente. Retiramos todos os trechos sedevacantistas, pois não nos alinhamos com esse tipo de pensamento. Indicamos aos nossos leitores que tenham cuidado em acessar o site fonte, que só colocamos ao fim do artigo por obrigações de citar a fonte usada.

1 J.N.D. Kelly, Oxford Dictionary of PopesOxford University Press, 1986, pág. 227.
2 Warrem H. Carroll, A History of Christendom, vol. 3 (The Glory of Christendom), Front Royal, VA: Christendom Press, pág. 429.
3 Warrem H. Carroll, A History of Christendom, vol. 3 (The Glory of Christendom), pág. 431.
4 Pe. John Laux, Church History, Rockford, IL: Tam Books, 1989, pág. 404.
5 Warrem H. Carroll, A History of Christendom, vol. 3 (The Glory of Christendom), pp. 432-433.
6 Citado por Warrem H. Carroll, A History of Christendom, vol. 3 (The Glory of Christendom), pág. 433.
7 Warrem H. Carroll, A History of Christendom, vol. 3 (The Glory of Christendom), pp. 432-434.
8 Pe. John Laux, Church History, pág. 404.
9 Pe. John Laux, Church History, pág. 405.
10 J.N.D. Kelly, Oxford Dictionary of Popes, pág. 231.
11 J.N.D. Kelly, Oxford Dictionary of Popes, pág. 232.
12 Pe. Andrew Pradel, St. Vincent Ferrer: The Angel of the Judgment, Tam Books, 2000, pág. 39.
13 J.N.D. Kelly, Oxford Dictionary of Popes, pág. 237.
14 Pe. John Laux, Historia da Igreja, pág. 405.
15 J.N.D. Kelly, Oxford Dictionary of Popes, pág. 235.
16 J.N.D. Kelly, Oxford Dictionary of Popes, pág. 235.
17 Warrem H. Carroll, A History of Christendom, vol. 3 (The Glory of Christendom), pág. 472.
18 Pe. John Laux, Church History, pág. 405.
19 Warrem H. Carroll, A History of Christendom, vol. 3 (The Glory of Christendom), pág. 473-474.
20 Warrem H. Carroll, A History of Christendom, vol. 3 (The Glory of Christendom), pág. 471.
21 Warrem H. Carroll, A History of Christendom, vol. 3 (The Glory of Christendom), pág. 479.
22 J.N.D. Kelly, Oxford Dictionary of Popes, pág. 238.
23 Warrem H. Carroll, A History of Christendom, vol. 3 (The Glory of Christendom), pág. 485.
24 Warrem H. Carroll, A History of Christendom, vol. 3 (The Glory of Christendom), pág. 487.
25 J.N.D. Kelly, Oxford Dictionary of Popes, pág. 236.
26 Pe. John Laux, Church History, pág. 408Pe. James Edmund O’Reilly, The Relations of the Church to Society – Theological Essays.
27 Pe. James Edmund O’Reilly, The Relations of the Church to Society – Theological Essays.
28 Pe. James Edmund O’Reilly, ibídem, pág. 287.

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Amor Mariano