Artigos Santos

A vida de São Nicolau – Completo

Escrito por Amor Mariano

São Nicolau ocupa um lugar proeminente entre os Santos que gozam do favor popular, pelo encanto das lendas que esmaltam a sua existência, tornando-a em formoso livro de maravilhosas estampas, muito agradáveis de contemplar.

São Nicolau de Bari nasceu nos finais do século 111, entre os anos de 270 e 280, na cidade de Pátara, capital da Lícia, na extremidade meridional da Ásia Menor. Seus pais, nobres e ricos, eram extremamente piedosos, pelo que, mal o menino abriu os olhos para a luz do mundo, se abriu a sua alma para o conhecimento de Deus e começou a comunicar com Ele pela prática da oração.

Aos cinco anos, começou Nicolau a frequentar a escola, primeiro na sua cidade natal, e depois numa localidade próxima, onde se reunia a juventude estudantil. Aí sofreu muito o menino, por causa do mau exemplo dos companheiros de estudo, que eram libertinos e licenciosos, pelo que o Santo se desviava deles como do diabo em pessoa. Apenas travou amizade com um ou outro que, como ele, aborreciam o pecado e amavam a virtude.

Nicolau aprendeu desde muito criança o valor da oração, e que não é possível vencer o pecado sem a ajuda de Deus, a qual se consegue através da oração. Por isso, sempre que podia, desviava-se da companhia dos homens, para se esconder no quarto, a fim de rezar e falar com Deus.

Os livros que lia com mais afeição eram as Sagradas Escrituras, por que sabia que elas são a Palavra de Deus escrita, pela qual Deus nos fala e nos diz o que devemos fazer.

Quando, para condescender com os companheiros, os acompanhava em jogos infantis, que ninguém se atrevesse a dizer qualquer palavra feia ou desonesta, porque Nicolau aborrecia-se imenso e repreendia-os com dureza. Se não se arrependiam, deixava-os e ia-se embora.

PUREZA DE SÃO NICOLAU

Conhecemos já o seu interesse, quase se diria paixão, pela oração. Deixava os jogos próprios da sua idade para dedicar alguns momentos à oração. Quando se aplicava ao estudo, nunca o fazia sem antes ter rezado; e, quando terminava, voltava de novo a rezar.

Da sua familiaridade com Deus na oração é que lhe veio aquela pureza de consciência e aquele extraordinário horror ao pecado, pelo que não somente fugia do pecado manifesto mas até mesmo do mais pequeno perigo de pecar. Fugia de conversar com as mulheres e dos companheiros que falavam de mulheres, afastando os olhos de tudo o que pudesse suscitar-lhe pensamentos inconvenientes, que poderiam pôr em perigo a sua virtude.

Para guardar continência e conservar a sua alma sempre pura e imaculada, esforçava-se por observar os seguintes pontos:

  1. O primeiro é andar sempre na presença de Deus, com muita humildade, pois “Deus resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes.
  2. O segundo é recorrer a Deus, implorando o seu auxílio no momento da tentação, invocando os nomes de Jesus e de Maria, que, segundo Santo Afonso de Ligório, têm um poder extraordinário para afugentar as tentações do demônio.
  3. O terceiro é frequentar os sacramentos da confissão e da comunhão, pois, “tentação descoberta é tentação meio vencida”.
  4. O quarto é a devoção especial à Santíssima Virgem, Rainha das virgens, a qual nos ajuda de modo muito especial a conseguir aquela virtude em que Ela tanto se distinguiu.
  5. E o quinto remédio, que é o principal e mais eficaz de todos, consiste em fugir de todos os perigos de pecar, pois está escrito que “quem ama o perigo cai nele” (Ecli. 3,27).

Por isso, São Nicolau fugia dos maus companheiros como do próprio demônio e nada queria com eles.

 

SÃO NICOLAU PATRONO DOS NOIVOS

Quando tinha 20 anos, S. Nicolau perdeu os pais. A peste que se declarou na Lícia levou-lhos apenas com três dias de intervalo.

Mas a grande fé do Santo deu-lhe fortaleza para superar tamanha dor, pois sabia muito bem que “a vida muda, mas não se acaba”, porque desta vida caduca e perigosa se passa a uma vida eterna e cheia de felicidade.

Como era filho único, ficou na posse de riquezas avultadas que lhe deram meios de redobrar a sua caridade, protegendo com grande delicadeza todos os necessitados. A este propósito, conta-se o caso seguinte:

Um dos seus vizinhos que, noutros tempos tinha sido rico, pelas vicissitudes da vida veio a cair em extrema indigência. Tinha ele três filhas jovens, a quem a pobreza tirou toda a esperança de casamento por falta de dote. O desventurado pai, como último recurso, tinha intenção de lhes propor que se entregassem à má vida, vendendo o próprio corpo.

Talvez por divina revelação, veio a sabê-lo S. Nicolau e, ainda antes que o desgraçado pai chegasse a propor às filhas a sua ideia, tratou logo de arranjar remédio, mas sob o mais rigoroso sigilo, como recomenda o Evangelho (Mt. 6,3)

De noite, aproximou-se da casa daquele vizinho com uma grande bolsa de dinheiro. Vendo uma janela entreaberta, atirou a bolsa lá para dentro e, como se tivesse cometido algum crime, fugiu a correr para que ninguém o reconhecesse.

Com aquele dinheiro, pôde o pai fazer o dote à filha mais velha, casando-a honradamente.

Vendo que o estratagema resultara em pleno, Nicolau cheio de satisfação, repetiu a esmola pela segunda vez, com o mesmo sigilo e a mesma munificência. O pai, delirante com o sucedido, sem saber a que atribuir tanta generosidade, conseguiu assim casar igualmente a sua segunda filha.

O pai, muito arrependido do que, no auge do desespero, tinha pensado fazer das suas filhas quis conhecer e agradecer ao seu benfeitor todo o bem que lhe tinha feito. Por isso, resolveu pôr-se de vigia às janelas da sua casa todas as noites, no intuito de o descobrir. Pensava que o misterioso benfeitor não deixaria de voltar, para que pudesse assim casar também a filha mais nova. E foi o que aconteceu.

Nicolau julgava-se muito seguro de não ser visto quando resolveu levar a terceira bolsa de dinheiro. Mas o pai estava de vigia e descobriu-o. Agarrou-se fortemente às roupas de Nicolau e impediu-o de fugir.

Louco de alegria por ter descoberto o seu misterioso benfeitor, lançou-se-lhe aos pés e começou a beijar-lhos com muitas lágrimas de gratidão por lhe ter salvado as filhas do desespero, da vergonha, do pecado e da morte.

Em vão o caritativo jovem, confuso, lhe pediu que não dissesse nada a ninguém. Aquele homem, como os cegos do Evangelho, que não obstante a proibição de Jesus (Mt. 9,3), divulgaram por todo o lado a sua cura, também não pôde guardar o segredo que o Santo lhe pedia. Por isso, expressou publicamente toda a sua gratidão, pelo que os habitantes de Pátara ficaram a conhecer a admirável conduta de Nicolau e bendisseram uma vez mais a sua inesgotável caridade.

Toda a alma do Santo se revela neste acontecimento, em que o resplendor das mais formosas virtudes vai unido à mais fina delicadeza. Este facto tornou-se famosíssimo em toda aquela região e veio a valer ao Santo ser considerado como patrono dos noivos.

Nicolau sentia que Deus o chamava ao estado sacerdotal.

Aos seus ouvidos ressovam as palavras do Mestre:

“Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me” (Mt.19,21 ).

Deu-o a conhecer a seu tio, o venerável Bispo de Mira, que ficou radiante e muito feliz por poder alimentar a vocação de seu sobrinho.

 

NICOLAU PREPARA-SE PARA O SACERDÓCIO

O santo Bispo de Mira fê-lo aprofundar ativamente o estudo da teologia, a ciência preferida pelo piedoso jovem.

Este escolheu para habitação uma humilde casinha nos arredores da cidade, e aí, entregue ao silêncio, ao recolhimento e à oração, passou um ano em solene espera.

Com esta preparação, Nicolau tornou-se digno do sacerdócio aos 23 anos de idade. Veio a receber as sagradas Ordens com uma piedade verdadeiramente angélica, das mãos do seu tio Bispo da cidade.

Já sacerdote, Nicolau, cada vez mais ávido de recolhimento e solidão, escolheu como morada um mosteiro de frades ascetas que se dedicavam totalmente à oração e à prática da penitência. Mas o seu tio Bispo, reconhecendo a sua grande virtude e valor, chamou-o para o encarregar de governar a diocese, enquanto ia em peregrinação à Terra Santa.

No regresso deste, entusiasmado pelo que o tio lhe contava da sua peregrinação, decidiu-se também ele viajar até à Terra Santa, passando pelo Egipto e aproveitando para visitar Santo Antão, abade, de quem tinha ouvido contar grandes maravilhas, pelo que tinha um enorme interesse em conhecê-lo.

No encontro com Santo Antão, no deserto, tudo foi maravilhoso: aquela austeridade, aquela vida mais própria de anjos do que de homens, cativaram-lhe o coração, deixando-o emocionado.

Partiu então dali para a Terra Santa, com a intenção de se retirar depois para alguma gruta, a fim de passar aí o resto dos seus dias, completamente esquecido do mundo.

Mas, como se costuma dizer, o homem põe e Deus dispõe.

Quando julgava ter já encontrado o seu refúgio para viver, teve uma visão em que Deus lhe ordenava que voltasse quanto antes para a sua cidade.

 

NICOLAU É ACLAMADO BISPO

O desembarque do nosso Santo em Mira foi verdadeiramente triunfal. Todo o povo se juntou a recebê-lo, com muito carinho e afeto. Ele, por seu lado, aplicou-se ainda com maior ardor a procurar merecer esse mesmo afeto e estima que todos lhe dedicavam, sobretudo os seus monges e religiosos.

Por outro lado, Deus continuava a favorecê-lo com o dom dos milagres. Enquanto construíam uma nova igreja no mosteiro, alimentou um dia com um só pão oitenta trabalhadores.

Metódio, que conta este prodígio, acrescenta que realizou outras coisas parecidas.

Entretanto, faleceu o Bispo João, seu tio, e os Prelados da província eclesiástica, reunidos segundo o costume para proceder à eleição do novo Bispo de Mira, hesitavam em escolher qualquer dos vários candidatos ao lugar. Mas aconteceu que um dos Bispos presentes, que exercia as funções de presidente daquele capítulo, e era eminente pelas suas virtudes, foi favorecido com uma visão sobrenatural que, em seguida, comunicou à venerável assembleia:

“O sucessor de João – disse- será um sacerdote chamado Nicolau que amanhã, antes da aurora, será o primeiro a entrar nesta igreja”.

Os outros Bispos, admirados, pediram a quem tal dizia, que, no dia seguinte, estivesse às portas da igreja desde o amanhecer. E todos passaram a noite à espera e a rezar.

Ao despontar a aurora, Nicolau, ignorando tudo o que o esperava, chegou ao templo para rezar as suas orações matinais.

Mas, logo que entrou, viu-se detido pelo Bispo que lhe perguntou:

– Quem és tu?

E Nicolau respondeu humildemente:

– Sou um pobre pecador

– Mas como te chamas?

– Sou o sacerdote Nicolau

O Bispo vendo nisto a expressão da vontade divina, apressou-se a conduzir Nicolau perante a ilustre assembleia e, com a voz embargada, disse:

“Eis aqui aquele que esperávamos; este é o sucessor do Bispo João”.

O nosso Santo foi designado por aclamação para ocupar a sé episcopal de Mira. O clero e o povo rivalizavam em entusiasmo pela exaltação a tão elevado cargo do digno e bem-amado sobrinho do defunto prelado, sacerdote humilde e piedoso, cuja fama de santidade se estendia a toda a Lícia.

A alegria foi tão unânime que o recém eleito, depois de lutar quanto pôde para não aceitar aquela honra, de que se considerava indigno, vendo a constância e unanimidade de todos, não teve outro remédio senão resignar-se à vontade de Deus, sendo então nomeado Bispo de Mira.

Celebrou-se a cerimónia da sagração, e durante a missa de pontificado, um grandioso e inesperado milagre veio confirmar ainda mais a opinião geral acerca da santidade do novo Bispo.

Enquanto se processavam os atos do culto, viu-se entrar uma mulher a chorar com grande pranto, que levava um menino morto, queimado pelo fogo. Abriu caminho pelo meio da multidão e dirigiu-se para onde estava o santo e pôs-lhe aos pés o corpo do filho das suas entranhas, que acabava de perder, suplicando-lhe que lho restituísse. Este estava horrivelmente deformado. A expectativa que se seguiu a este ato mal se pode descrever: a mãe, chorando, de joelhos, a apresentar o filho queimado e morto; o prelado, vestido de pontificai e rodeado de grande número de bispos, sacerdotes e religiosos; as autoridades da cidade, com toda a pompa e aparato próprio de tais casos, e o povo em massa na expectativa do desenlace daquela cena patética.

O Bispo olhou compassivo para a desolada mãe, fez sobre o menino o sinal da cruz,  acompanhado por uma breve oração, e o menino levantou-se vivo e são. A emoção foi indescritível!

 

SÃO NICOLAU PÕE FIM À FOME QUE GRASSAVA EM MIRA

No ano de 333, havia em todo o Oriente tanta carestia de alimentos, e era tanta a fome de que as pessoas padeciam, que muita gente morria de pura necessidade.

Nicolau preocupado com os seus diocesanos, rogava a Deus com lágrimas que lhes acudisse e remediasse tamanhas necessidades. Do púlpito, pedia a todos que procurassem viver cristãmente e orassem muito para alcançar de Deus Todo Poderoso o indispensável sustento.

A Divina Providência que nunca falta aos que n’Eia confiam, em breve lhes deu a resposta oportuna.

Tendo sabido por revelação divina que um navio carregado de trigo passava em frente à costa, S. Nicolau apareceu em sonhos ao dono do cargueiro, dono da carga também, e ordenou-lhe que desviasse a sua rota e levasse a mercadoria para o porto de Mira, que aí lha compraria. Como sinal do contrato, entregou-lhe três moedas de ouro. De manhã, ao acordar, o homem recordou-se do sonho que tivera e vendo na mão as três moedas de ouro, encheu-se de santo temor e resolveu de imediato levar o carregamento de trigo para Mira, remediando desta forma a fome dos mirenses.

Quando o capitão chegou ao porto de Mira e se encontrou entre os muitos que o aguardavam com o Bispo S. Nicolau, logo o reconheceu e, de joelhos, contou a todos a visão que tinha tido.

Todos ficaram admirados e davam graças a Deus que, por meio do santo Bispo, tinha remediado as suas carências.

Entretanto a notícia logo se espalhou por toda a parte e começaram a chegar de todo o lado pessoas que lhe pediam que as socorresse. Por isso, a abundância não durou muito e a fome voltou de novo a sentir-se em toda a região.

Quando a fome em Mira já voltava a tornar-se insuportável e alguns começavam a desfalecer, o Santo mandou que se redobrassem as preces e que confiassem em Deus, com a certeza de que, se pedissem com fé, a sua confiança não seria defraudada.

Por aqueles dias, estando o Santo em oração, soube por divina inspiração que tinham chegado à costa uns barcos carregados de trigo. Correndo para lá, falou com o comandante da frota e expôs-lhe a situação e suplicou que remediasse aquela necessidade. O comandante respondeu que tinha muita pena, mas não podia fazer qualquer entrega, porque toda aquela carga que trazia de Antioquia era o tributo que eram obrigados a levar para Constantinopla para entregar ao exactor imperial.

Nicolau disse-lhe que não tivesse medo, porque ele prometia que quando chegasse a Constantinopla, nada lhe faltaria nem no peso nem na medida do que era obrigado a entregar.

Como a fama do Santo era muito conhecida, os homens confiaram nele e fizeram-lhe entrega duma pequena quantidade de trigo de cada barco, certos de que o Santo não os iria enganar. Foi exatamente o que sucedeu: quando descarregaram os barcos em Constantinopla, estava tudo certo, tanto no peso como na medida das quantidades que tinham de entregar.

Mas a esta maravilha sucederam outras ainda maiores.

Graças à munificência do Omnipotente, a quantidade de trigo, relativamente pequena que o Santo distribuiu, multiplicou-se de tal maneira que chegou para as necessidades daquele ano e até para quase todo o ano seguinte. Mais ainda: muitos, cheios de fé, semearam parte daquele trigo, do qual vieram a ter uma abundantíssima colheita que a todos espantava. Assim se cumpria a palavra do Senhor no Evangelho:

“Aquele que crer em Mim fará tudo o que Eu faço, e ainda coisas maiores” (Jo.14 12).

Na verdade, assim como Cristo multiplicou os pães e os peixes para saciar a fome de muitos milhares de pessoas, também Deus, por intermédio de S. Nicolau, multiplicou o trigo para remediar a fome dos mirenses.

 

SANTA MORTE DE S. NICOLAU

Tendo o santo ancião conhecido por divina revelação que se aproximava a sua morte, preparou-se para esse festivo acontecimento, celebrando uma missa de pontificial perante os seus amados diocesanos, a quem dirigiu as suas últimas recomendações. Depois, fez uma comovente despedida e partiu para o seu mosteiro, dedicando-se á oração, à espera do momento desejado de ir ao encontro do Pai que está no Céu.

Ao aproximar-se o fim, quis receber com extraordinária devoção e enorme fervor o santíssimo Viático da Eucaristia que ele tanto tinha amado em toda a sua vida. Em seguida, abençoou todos os presentes e começou a entoar o salmo: “Em ti, Senhor, esperei …” Chegando ao versículo: “Nas tuas mãos, Senhor, encomendo a minha alma”, finou-se na paz do Senhor. Tinha então 85 anos de idade.

Como a sua fama de santidade era de todos bem conhecida, cada um encomendava ao Santo as suas necessidades, e os milagres multiplicavam-se por todo o lado, tornando-se impossível recolher aqui nem sequer os principais.

Como exemplo, vamos relatar o seguinte:

Um judeu tinha emprestado a um cristão uma certa quantia de dinheiro, jurando este por S. Nicolau que lho devolveria religiosamente no prazo estabelecido. Quando o credor veio reclamar o seu dinheiro, o devedor disse que já lho tinha devolvido. O judeu, vendo a atitude do cristão, citou-o perante o Juiz para que prestasse juramento solene. Então o cristão levou consigo às escondidas um bastão de cana, oco, e enchendo-o de moedas de ouro, apresentou-se com ele ao Juiz. Quando este o chamou a depor, o cristão pediu ao seu credor que lhe segurasse o bastão, para se ir apresentar no lugar assinalado. Aí jurou que já tinha entregado o dinheiro que devia, e até mais do que o devido.

Terminou o julgamento com a absolvição do cristão que pediu de novo ao judeu que lhe desse o seu bastão e foi-se embora. Pouco depois, ao voltar a casa, no caminho, sentou-se a descansar e adormeceu.

Entretanto, passou por ali uma carruagem que o atropelou e matou. A cana também foi atingida, quebrou-se e as moedas espalharam-se pelo chão.

Tendo o judeu sabido deste infeliz acontecimento, foi logo ao local com outros curiosos, para ver o cadáver do seu devedor. Ao ver a cana quebrada e as moedas espalhadas, logo compreendeu o engano de que tinha sido vítima. Aproximou-se do cristão e lembrando-se de que ele tinha jurado por S. Nicolau que lhe pagaria a divida, logo ali lançou um repto:

“Se S. Nicolau o ressuscitar, eu me farei baptizar!”

De imediato, o milagre aconteceu. O defunto voltou à vida, e o judeu, à vista de tal milagre, pediu fervorosamente o batismo.

Como os milagres se sucediam, o culto público de S. Nicolau começou mesmo enquanto duravam as exéquias. A canonização do Santo processou-se segundo o rito da época, constituindo apenas um eco da consagração da voz popular, confirmando-se mais uma vez o velho aforismo de que “Vox populi, vox Dei” isto é, “a voz do povo é a voz de Deus”.

Logo se começaram a erigir igrejas e mosteiros em honra do nosso Santo. Alguns anos mais tarde, após a sua morte, Santa Paula Romana construiu em Jerusalém um santuário dedicado ao grande taumaturgo.

Mais tarde foi-lhe igualmente dedicado um templo famoso na capital do mundo cristão, no local onde, noutro tempo, tinha sido levantado pelo Senado um memorial em honra da piedade filial.

O fato que motivou a construção deste templo em tempos do paganismo, foi o seguinte:

Uma jovem, triste por ver seu pai encarcerado e condenado a morrer de fome, obteve autorização para o visitar com a condição de não lhe levar qualquer alimento. Os carcereiros vigiaram-na atentamente. Mas a jovem, que já era mãe há algum tempo, dava ao pai o peito que antes tinha amamentado o próprio filho. Toda a gente se admirava de que o prisioneiro não sucumbisse ao flagelo da fome. Redobraram-se as cautelas, mas acabou por se descobrir o piedoso estratagema. O Senado veio a ter conhecimento do caso, e admirado com o procedimento da jovem, ordenou que o preso fosse libertado.

No mesmo sítio foi então resolvido edificar um monumento à piedade filial, depois de deitada abaixo a antiga prisão.

Este templo tinha já sido convertido em igreja cristã pelo Papa Silvestre. Por feliz coincidência, foi um dos primeiros templos em honra do taumaturgo vencedor do paganismo. Foi dedicado a S. Nicolau pelo Papa S. Gregório Magno.

Costuma-se pintar S. Nicolau rodeado por três meninos numa salgadeira, representando os três jovens que um desnaturado estalajadeiro matou de noite, quando dormiam na sua estalagem. Tendo-os esquartejado, meteu-os numa salgadeira com muito sal, para depois os servir aos seus clientes.

Mas S. Nicolau, inteirado do fato por divina revelação, apresentou-se de imediato ali. Chamou o estalajadeiro, criticou-o de tal forma que o mesmo, arrependido, pediu perdão do seu ato, ao mesmo tempo que o Santo fazendo uma breve oração, fez o sinal da cruz sobre os cadáveres e logo os jovens voltaram à vida, sãos e salvos como se nada tivesse acontecido.

É conhecido como S. Nicolau de Bari, porque, desde o século XI, é nessa cidade que repousam as suas relíquias.

A sua festa foi elevada ao rito duplo, segundo a antiga classificação das festas religiosas, pelo Papa Clemente X, a 6 de Dezembro de 1670.

________________________________

Texto e imagens extraídos do Livro São Nicolau – Editorial Missões
Título Original: San Nicolás de Bari
Autor: Andrés Codesal
Distribuído por: Apostolado Mariano – Sevilha – Com Licença Eclesiástica
Tradução e Adaptação: Professor João Santos
Para baixar o PDF, clique aqui.

Sobre o autor

Amor Mariano