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Os Santos Inocentes

Escrito por Mateus

Ainda não falam e já proclamam Cristo

A glória do martírio, que outros mereceram por vontade própria, os Santos Inocentes a alcançaram pela graça de Deus.

 

Os Santos Inocentes, cuja festa litúrgica celebramos neste dia 28 de dezembro, “morrem pelo Cristo, sem saberem”. Como explica o gênio teológico de Santo Tomás de Aquino, “a glória do martírio, que outros mártires mereceram por vontade própria, essas crianças a alcançaram pela graça de Deus” [1]. Embora não tivessem idade suficiente para crer na paixão de Cristo, esses infantes traziam consigo “a carne capaz de sofrer a mesma paixão que Ele haveria de sofrer”, na expressão de Santo Agostinho.

Essas verdades vão todas repetidas no belo sermão proclamado pelo Ofício das Leituras de hoje. Seu autor é um bispo do século V, chamado Quodvultdeus (nome latino que quer dizer, literalmente, “querido por Deus” ou “aquele que Deus quis”). Prestemos atenção ao que ele nos ensina e seremos capazes de ouvir a voz daqueles bebês martirizados que “ainda não falam e já proclamam Cristo”, “não podem ainda mover os membros para a luta e já ostentam a palma da vitória”.

Dos Sermões de São Quodvultdeus, bispo
(Sermo 2 de Symbolo: PL 40, 655)

Ainda não falam e já proclamam Cristo

Nasceu um pequenino que é o grande Rei. Os magos chegam de longe e vêm adorar, ainda deitado no presépio, aquele que reina no céu e na terra. Ao anunciarem os magos o nascimento de um Rei, Herodes se perturba e, para não perder o seu reino, quer matar o recém-nascido. No entanto, se tivesse acreditado nele, poderia reinar com segurança nesta terra e para sempre na outra vida.

Por que temes, Herodes, ao ouvir que nasceu um Rei? Ele não veio para te destronar, mas para vencer o demônio. Como não compreendes isso, tu te perturbas e te enfureces; e, para que não escape o único menino que procuras, tens a crueldade de matar tantos outros.

Nem as lágrimas das mães nem o lamento dos pais pela morte de seus filhos, nem os gritos e gemidos das crianças te comovem. Matas o corpo das crianças porque o medo matou o teu coração; e julgas que, se conseguires teu propósito, poderás viver muito tempo, quando precisamente é a própria Vida que queres matar.

Aquele que é a fonte da graça, pequenino e grande ao mesmo tempo, reclinado num presépio, apavora o teu trono. Por meio de ti, e sem que saibas, realiza os seus desígnios e liberta as almas do cativeiro do demônio. Recebe como filhos adotivos os filhos dos que eram seus inimigos.

Essas crianças morrem pelo Cristo, sem saberem, enquanto seus pais choram os mártires que morrem. Cristo faz suas legítimas testemunhas aqueles que ainda não falam. Eis como reina aquele que veio para reinar. Eis como já começa a conceder a liberdade aquele que veio para libertar, e a dar a salvação aquele que veio para salvar.

Tu, porém, Herodes, ignorando tudo isto, te perturbas e te enfureces; e enquanto te enfureces contra o Menino, já lhe prestas homenagem, sem o saberes. Ó imenso dom da graça! Que méritos tinham aquelas crianças para obterem tal vitória? Ainda não falam e já proclamam o Cristo. Não podem ainda mover os membros para a luta e já ostentam a palma da vitória.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere

Referências

  1. Suma Teológica, II-II, q. 124, a. 1, ad 1.

Sobre o autor

Mateus