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O NECESSÁRIO RECOLHIMENTO SOBRENATURAL DA ALMA

Escrito por Frederico -

Escutemos o Papa Pio XII, em passagens da sua encíclica “Menti Nostrae”, promulgada em 23 de Setembro de 1950:

«Antes de tudo, exorta-nos a Santa Igreja à meditação, que eleva a alma à contemplação das coisas celestes, guia-a para Deus, e a faz viver numa ATMOSFERA SOBRENATURAL de pensamentos e afetos, que constituem a melhor preparação e a mais frutuosa acção de Graças à Santa Missa.

A meditação,  além disso, dispõe a alma a saborear e compreender as belezas da Liturgia, E FÁ-LA CONTEMPLAR AS VERDADES ETERNAS, E OS ADMIRÁVEIS EXEMPLOS E ENSINAMENTOS DO EVANGELHO E DOS MISTÉRIOS DA VIDA DE JESUS.

Ora, a isso deve estar contìnuamente atento o sacerdote, para reproduzir em si mesmo as virtudes do Redentor. Como, porém, o alimento material não alimenta a vida, não a sustenta, não a faz crescer, se não é convenientemente assimilado, assim o sacerdote não pode adquirir o domínio sobre si mesmo e os seus sentidos, nem purificar o seu espírito, nem tender – como deve – à virtude, nem afinal, cumprir com alegre fidelidade e frutuosamente os deveres  do seu Sagrado Ministério, se não tiver aprofundado, pela meditação assídua e incessante, os Mistérios do Divino Redentor, Supremo Modelo da vida sacerdotal e inexaurível Fonte de Santidade.

Julgamos, pois, ser grave obrigação nossa exortar-vos à prática da oração quotidiana, prática também recomendada ao clero pelo Código de Direito Canónico. Porque como o estímulo à perfeição sacerdotal é alimentado e fortificado pela meditação quotidiana, assim do descuido e negligência desta prática origina-se a indiferença espiritual, pela qual diminui e enlanguesce a piedade, e não sòmente cessa ou se retarda o impulso para a santificação especial, mas todo o Ministério Sacerdotal sofre não ligeiros danos. Deve-se, com fundamento, assegurar por isso que nenhum outro meio tem a particular eficácia da meditação, e portanto é insubstituível a sua prática quotidiana.   

Não sejam, porém, separadas da oração mental a oração vocal e as outras formas de oração privada que, na condição particular de cada um, auxiliam a promover a união da alma com Deus. Mas deve-se ter isto presente: Mais do que múltiplas orações, vale a piedade e o verdadeiro e ardente espírito de oração. Esse ardente espírito de oração, se o era nos tempos passados, mais necessário é especialmente hoje, que o assim chamado “naturalismo”invadiu os espíritos e as inteligências, e a virtude se vê exposta a perigos de toda a espécie, PERIGOS QUE ÀS VEZES SE ENCONTRAM ATÉ NO PRÓPRIO MINISTÉRIO. Que nos poderá melhor premunir contra essas insídias, que poderá melhor elevar a alma às coisas celestiais e mantê-la unida com Deus, do que a oração assídua e a invocação dos Divinos auxílios?»  

 

Todos, mesmo apenas na Ordem Natural, necessitamos de recolhimento. Recolher-se significa tender à recuperação da unidade ontológica diminuída pela dispersão nas vicissitudes quotidianas. O ente, espiritual ou não, é tanto mais uno quanto mais intensamente for ele próprio, quanto mais resistir à desagregação, à erosão, do contacto com o meio ambiente.

Se isto é verdade na Ordem Natural, muito mais o será na Ordem Sobrenatural. Efectivamente, a elevação ao estado Sobrenatural situa a alma num plano infinitamente acima da vida natural, da vida terrena, conferindo-lhe o Dom da participação na Natureza Divina, e de certo modo recriando-a, admitindo a mesma alma na intimidade da Família da Santíssima Trindade.

Neste quadro conceptual, a alma na posse da Graça Santificante, das Virtudes Teologais e Morais, dos Dons do Espírito Santo, a alma que ama Sobrenaturalmente a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor de Deus, ENCONTRA-SE INCOMPARÀVELMENTE MAIS NECESSITADA DE RECOLHIMENTO DO QUE SE VIVESSE SÒMENTE NA ORDEM NATURAL. E A CARÊNCIA DESSE RECOLHIMENTO SIGNIFICA UMA VERDADEIRA VIOLAÇÃO MORAL DA ALMA FIEL.

Poder-se-ia argumentar que a Graça Santificante fortificaria a alma de modo extraordinário, e daí, e por inerência, dimanaria o recolhimento. Mas não é assim, porque se é verdade que a Graça Santificante robustece a alma, ratificando por assim dizer esse recolhimento, também lhe outorga novos horizontes, novas exigências e deveres, novas necessidades e consequentemente, novos perigos; e isto num mundo e numa natureza ferida pelo pecado original.

No Paraíso Terrestre, a vida concreta e o trabalho não dispersavam a alma, debilitando-lhe a unidade ontológica. Tal acontecia mercê da integridade Preternatural e Sobrenatural, na qual a união com Deus só era inferior à Visão Beatífica.

O activismo constitui grave defeito da vida religiosa, precisamente, pela perda de unidade ontológica, incapacitando não apenas para a contemplação, mas até para a simples meditação. Um sacerdote, seja secular, seja regular, um religioso, ou uma religiosa, habitualmente com pressa, tem que repensar profundamente a sua vida, sob pena de faltar a um dos seus mais graves deveres – A SANTIFICAÇÃO PESSOAL. E peca ainda mais o superior que sobrecarrega o sacerdote, de forma habitual, com tarefas exteriores.

Segundo São Tomás, a acção deve brotar da superabundância da contemplação. Contudo, recolhimento e contemplação não constituem a mesma coisa, porque o primeiro significa a recuperação da unidade ontológica, condição indispensável para o exercício da contemplação. Assinale-se que a verdadeira contemplação, aquela que procede dos Dons do Espírito Santo, É DEUS NOSSO SENHOR QUEM A OPERA EM NÓS, DE FORMA TOTALMENTE GRATUITA. Caracteriza-se pela Sobrenaturalidade, unidade do conceito e do afecto, universalidade, simplicidade, e grande fecundidade e definição do particular. Pelo contrário, a meditação, sendo operada pelas nossas faculdades, ainda que auxiliadas pela Graça de Deus, apresenta como notas: A pluralidade de conceitos e de afectos, a particularidade relativa com menor definição e menor simplicidade.

A alma do sacerdote, ou do religioso, não pode sobreviver em Graça Divina, privada de meditação, só alcançando alto grau de santidade se, com a ajuda de Deus, lograr ascender a um determinado grau de contemplação habitual, proporcionando-o à sua actividade exterior, mas sem esquecer que esse estado contemplativo a auxiliará nessa mesma vida exterior, evitando distrações, e consequentemente, sustentando a unidade ontológica, princípio de eficácia de operação.

É conhecido como Santo Tomás de Aquino ditou para secretários a maior parte das suas obras, e também se sabe QUE MESMO A DORMIR DITAVA. Tal não nos deve surpreender, porque o sono, sendo uma função psico-fisiológica, não conseguia anular o alto grau de contemplação da alma de Tomás, pois que as funções sobrenaturais da alma, como não podia deixar de ser, possuem notável ascendente sobre o campo psico-fisiológico, podendo mesmo suspendê-lo na união extática.

Também é conhecido que Santo Tomás deixou a Suma Teológica incompleta, porque tendo sido enriquecido, numa manifestação celeste, com uma visão Sobrenatural extraordinária dos Mistérios Divinos, concluiu que havendo uma tão grande distância entre o que escrevera em toda a sua vida, e a realidade dos Mistérios tal como ele a contemplara –  era melhor não escrever mais, e faleceu pouco depois.

Todavia, houve também grandes santos, como São Pio X, que jamais foram beneficiados com visões celestes; porque estas constituem uma forma extraordinária de Revelação Sobrenatural, equiparável, por exemplo, às Aparições de Fátima e Lourdes. A Irmã Lúcia, já em Tuy, foi favorecida com uma Visão do Mistério da Santíssima Trindade. De qualquer forma, uma alma pode ser predestinada a alto grau de santidade, mas permanecendo sempre num estado habitual de contemplação, sem visões e irrupções celestiais e sem êxtases nem levitações.

Caso especial, e muito venerado pelo autor destas linhas, é o de Santa Bernadette, na sua extrema humildade, na sua grande carência de dons naturais para o serviço do convento, sendo mesmo muito humilhada por isso, pobre, indefesa, doente, totalmente oculta com Nosso Senhor Jesus Cristo, no apagamento do natural face ao Sobrenatural; pois que a ela a Mãe do Céu havia dito: “NÃO TE PROMETO FAZER FELIZ NA TERRA, MAS SIM NO CÉU.” Em Santa Bernadette, o Mistério da Predestinação é indissociável da sua manifestação celeste, por haver sido confirmada em Graça, tal como os Apóstolos, tal como os Pastorinhos de Fátima. Almas assim permanecem em perpétuo e total recolhimento e contemplação, PORQUE TÊM A CERTEZA SOBRENATURAL QUE O MUNDO, ESTE PERVERSO MUNDO, JAMAIS LHES ARREBATARÁ O AMOR A DEUS SOBRE TODAS AS COISAS E AO PRÓXIMO POR AMOR DE DEUS. Conquistam assim, por predileção Divina, não apenas uma perfeita liberdade, mas uma estabilidade e uma felicidade Sobrenatural, que supera infinitamente todos os anseios, todas as preocupações, mesmo legítimas, que infelizmente, e em todas as épocas, assoberbaram a vida de tantos sacerdotes e de tantos religiosos, que não triunfaram naquela que é a única realidade verdadeiramente importante para uma alma: ORIENTAR-SE ESSENCIAL E IRREVOGAVELMENTE PARA DEUS NOSSO SENHOR, PARTICIPANDO DA SUA INCRIADA SANTIDADE, E PROCURANDO IRRADIÁ-LA NO MUNDO. 

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Lisboa, 16 de Setembro de 2017

Alberto Carlos Rosa Ferreira das Neves Cabral

Fonte: promariana.wordpress.com

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