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O ato de crer enquanto livre adesão do intelecto e da vontade à verdade revelada: fé, ignorância e sentimentalismo.

Escrito por Frederico -

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Uma piedade genuína não possui correspondência com sentimentalismo.

Como sugere o título, a fé ultrapassa de longe o mero sentimentalismo, o qual representa para nós uma fonte concreta de erros e enganos. Dada a nossa condição pós-lapsária, isto é, a condição do homem após o Pecado Original, a restou ferida e desordenada no seu intelecto, na sua vontade e nas suas paixões. Sendo essa a razão pela qual consiste a fé em um dom – uma graciosidade de Deus Pai, uma vez que a natureza, por suas próprias forças, não tem condições de se regenerar sem um auxílio externo, posto que corrompida exatamente naquilo que a poderia restaurar. Portanto, a fé se aperfeiçoa quando somos, pela ação da graça, levados a crer no que se efetivamente se deve crer, sobrenaturalmente, a partir de um ato livre. É aqui que o intelecto, que conhece e adere, impulsiona a vontade, a qual se move na direção do bem captado pela inteligência. Eis a fé em ato, o que não se confunde com sentimentalismo.

Nisto reside a necessidade se conhecer para amar, uma vez que não se pode amar o que não se conhece. Segue-se necessariamente que, para o fiel católico, conhecer sua fé é sumamente fundamental para se corresponder à graça que conduz á santificação e, ao fim e ao cabo, à Beatitude Eterna.

Nesse sentido afirma São Pedro: “…Estais sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito.” (I Pe. 3, 15)

E ainda em Atos dos Apóstolos, relata-se que: “Filipe aproximou-se e ouviu que o eunuco lia o profeta Isaías, e perguntou-lhe: Porventura entendes o que estás lendo? Respondeu-lhe: Como é que posso, se não há alguém que mo explique? E rogou a Filipe que subisse e se sentasse junto dele.” (At. 8, 30-31)

Essas, dentre outras muitas passagens das Sagradas Escrituras revelam, evidenciam que, para corresponder à graça é preciso ter fé, a qual vem do ato de conhecer e aderir, livremente ao que se conheceu. Eis aí a participação das duas potências superiores da alma no ato mesmo de crer e agir.

O intelecto e a vontade permanecerão em ato na alma separada do justo e nisto consiste a Bem Aventurança Eterna.

A salvação da alma não se alcança sem adesão do intelecto e da vontade à Verdade Encarnada que é Cristo Jesus. Tal se afirma porque, como ensina Santo Tomás de Aquino, existe alegria e tristeza na alma separada, face o apetite intelectivo que nela permanece, o ato de fé perfeito só pode se dar a partir do conhecimento do que se deve crer, donde nasce a adesão racional das duas potências superiores da alma, por graça, advindo daí a alegria do justo na Visão Beatífica.

Santo Tomás – o Doutor Angélico – sustenta a prevalência do intelecto e da vontade na alma separada do corpo, o que, por necessidade apodítica, nos leva a concluir pela imprescindibilidade de, nesta vida, se conhecer a verdade para alcançar a salvação da alma:

“Como já ficou dito (a. 5, 6, 7), todas as potências se comparam com a alma, em separado, como com o princípio. Mas, certas potências se comparam com a alma, em separado, como com o sujeito, e são o intelecto e a vontade; e tais potências necessário é que permaneçam na alma, depois de destruído o corpo. Outras porém, estão no conjunto, como no sujeito próprio; assim, todas as das partes sensitiva e nutritiva. Ora, destruído o sujeito, o acidente não pode permanecer; por onde, corrupto o conjunto, tais potências não permanecem na alma, atualmente, mas só virtualmente, como no princípio ou na raiz. ― E, por isso, é falsa a opinião de alguns, que tais potências permanecem na alma, mesmo depois de corrupto o corpo. E muito mais falsamente dizem; que também os atos dessas potências permanecem na alma separada, o que ainda é mais falso, por não haver nenhum ato delas que se não exerça por órgão corpóreo…Há alegria e tristeza na alma separada, não segundo o apetite sensitivo, mas segundo o intelectivo; como também se dá com os anjos.”(i)

Nisto, pois, consiste a vida eterna (zoe), como dito pelo Salvador: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.” (Jo. 8, 32)

Da necessidade de se conhecer a Doutrina Católica de Sempre, através do Catecismo, a fim se alcançar a salvação.

Posto que o ato de fé consiste num ato livre da vontade, a qual, iluminada pelo intelecto, adere e coopera com o influxo da graça, surge a necessidade de um “conhecer” prévio cujo objeto é o dado revelado, o qual encerra tuto aquilo que se deve crer para que se possa alcançar a salvação: O Catecismo da Igreja Católica. Cabe aqui destacar que estamos nos referindo ao Catecismo Maior de São Pio X, o qual, por razões óbvias, consideramos superior ao Novo Catecismo. Tal se justifica, sobretudo, dada a sua linguagem “aggiornada“, fruto das muitas novidades pós-conciliares, cuja matriz liberal-progressista-modernista, o influenciou, assim como praticamente todos os documentos da Igreja depois do Concílio Vaticano II, inclusive afastando-se da Sã Doutrina em não poucos aspectos fundamentais da fé.

Nessa linha, e considerando então a necessária instrução e conhecimento dos fiéis acerca da Doutrina Católica de Sempre, vale ressaltar que a questão foi objeto de apreciação pela Sé Apostólica, através da pena do último Papa Santo que Deus Nosso Senhor suscitou na sua Igreja. Estamos nos referindo a São Pio X que, corajosamente, enfrentou o problema da suma ignorância dos fiéis católicos acerca do básico da doutrina que se deve conhecer para alcançar a salvação eterna.

Tal se deu através da Carta Encíclica Acerbo Nimis, de 15 de abril de 1905, cuja leitura e estudo são obrigatórios para qualquer um que se julgue católico, seja qual for o estado de vida em que Deus o tenha chamado e no qual se encontre.

 Da suma ignorância tanto dos fiéis quanto de alguns do Clero: problema gravíssimo.

Eis, já naquela época, a gravidade do problema, exposta nas palavras inspiradas do sumo Pontífice, as quais transcrevemos a partir de dois excertos da Encíclica acima citada:

“Dos males que afligem a Religião não há quem, animado de zelo pela Glória divina, deixe de investigar as causas e razões, acontecendo que, como as encontra cada qual diversas, proponha diferentes meios, de acordo com a sua opinião pessoal, para defender e restaurar o Reino de Deus na Terra. Não proscrevemos, Veneráveis Irmãos, os pareceres alheios, mas estamos com os que pensam que esta depressão e debilidade das almas, de que derivam os maiores males, provêm, principalmente, da ignorância das Coisas Divinas. Esta opinião concorda inteiramente com o que o Deus mesmo declarou pelo Profeta Oseias:

– “Não há conhecimento de Deus na Terra. A maldição e a mentira, e o homicídio, o roubo e o adultério, tudo inundaram; o sangue junta-se ao sangue e por causa disto a Terra se cobrirá de luto e todos os seus moradores desfalecerão” (Oseias 4,1-3).” (grifos nossos) [ii]

E ainda:

“…Quão fundadas são, desgraçadamente, estas lamentações, hoje, que existe tão crescido número de pessoas, entre o Povo Cristão, que ignoram totalmente as coisas que é mister conhecer para conseguir a Salvação Eterna! Ao dizer “Povo Cristão” não nos referimos somente à plebe, ou às classes inferiores – às quais servem de escusa o acharem-se com freqüência submetidas a homens tão duros que lhes não deixam tempo nem para cuidar de si mesmas, nem das coisas que se referem à sua alma – mas e principalmente falamos daqueles aos quais não falta entendimento nem cultura e até se mostram dotados de profana erudição, apesar de que em coisas de Religião vivem da maneira mais temerária e imprudente que imaginar se possa.

Dificílimo seria ponderar a espessura das trevas que os envolvem e – o que mais triste é – a tranquilidade com que nelas permanecem! De Deus, Soberano Autor e Moderador de todas as coisas, e da Sabedoria da Fé Cristã não se preocupam, de forma que verdadeiramente nada sabem da Encarnação do Verbo de Deus, nem da Perfeita Restauração do Gênero Humano, por Ele consumada; nada sabem acerca da Graça, principal auxílio para alcançar os Bens Eternos; nada acerca do Augusto Sacrifício nem dos Sacramentos, mediante os quais conseguimos e conservamos a Graça. Quanto ao pecado, não conhecem sua malícia nem o opróbrio que consigo traz, de sorte que não põem o menor cuidado em evitá-lo ou expiá-lo, e chegam ao Dia Extremo em disposição tal que, para não os deixar sem qualquer Esperança de Salvação, o Sacerdote se vê constrangido a aproveitar os derradeiros instantes de vida para sumariamente lhes ensinar Religião, ao invés de empregá-los principalmente, conforme conviria, em movê-los a afetos de Caridade; isto quando não sucede que o moribundo sofra de tão culpável ignorância que tenha por inútil o auxílio do Sacerdote e resolva tranquilamente franquear os Umbrais da Eternidade sem haver prestado a Deus conta dos seus pecados. Por isso, o Nosso Predecessor Bento XIV justamente escreveu:

“Afirmamos que a maior parte dos condenados às penas eternas padece sua perpétua desgraça por ignorar os Mistérios da Fé, que necessariamente se devem conhecer e crer, para ser contado no número dos eleitos” (Instit. 27,18). (grifos nossos)[iii]

Conclusão em forma de apelo: não se pode amar os bens eternos sem conhecê-los e a eles aderir livre e racionalmente.

A essa altura, resta-nos apenas reiterar o apelo acima, fazendo nossas as palavras de S.S. São Pio X e S.S. Bento XIV, o qual dirigimos, cheios de zelo e caridade para com as almas dos fiéis católicos, no sentido de que busquem se aprofundar nos Mistérios da Fé, os quais devem, necessariamente, conhecer por meio de um ato concreto da inteligência e da vontade, a fim de colaborar concretamente com a graça e alcançar a Beatitude Eterna, mesmo a custa de grandíssimos sacrifícios, como cristalina e incisivamente nos exorta S. S. Pio XII, na Alocução aos Estudantes Franceses de 17 de abril de 1947:

“O espírito do mal, que nunca se desarma, está redobrando, neste momento, seus esforços na luta contra a Santa Igreja e contra qualquer sociedade humana ordenada, contra Deus e contra Jesus Cristo, e, a fúria de que usa me pareceria pressagiar que essa luta está às vésperas de desembocar numa solução definitiva, se não soubéssemos que durará tanto quanto o mundo e que somente se resolverá pela vitória de Deus e o triunfo final de Sua Igreja. Nesse ínterim, esse espírito do mal prossegue suas devastações; faz numerosas vítimas: vítimas que, cegamente, se deixam vencer, deportar e assujeitar por ele; vítimas afortunadas – mas dolorosas mesmo assim – que somente se mantêm na santa liberdade dos filhos de Deus ao preço de sacrifícios heroicos.” (grifos nossos) [iv]

Referências:

[i] – Suma Teológica, 1ª parte, questão 77, art. 8º;

[ii] – Carta Encíclica ACERBO NIMIS, do Sumo Pontífice Pio X
sobre o Ensino do Catecismo – Disponível em: http://www.veritatis.com.br/acerbo-nimis-pio-x-15-04-1905/;

[iii] – ibid;

[iv] – Alocução aos Estudantes Franceses de 17 de abril de 1947, opus cit, Revista Permanência, nº. 273, 2014, pag. 22.

Sobre o autor

Frederico -